Brasil e a indústria da construção civil. Artigo sobre a globalização da construção.

A globalização na indústria da construção

Maurício Bernardes

O fenômeno da globalização que expôs a economia brasileira a uma competição acirrada em inúmeros segmentos possivelmente trará o mesmo destino ao mercado da construção civil nacional. Não me refiro aos novos sistemas e técnicas construtivas isoladamente, mas sim a novos construtores e desenvolvedores imobiliários internacionais, com novos conceitos de engenharia e de negócios. Aonde há mercado com demanda reprimida, como no caso brasileiro, é natural que se projete o acirramento da competição, quando as condições econômicas alcançarem maior estabilidade.

Há diversas empresas internacionais, com espírito de indústria, que vem se notabilizando por disputar negócios fora de seus países de origem. A Hyundai Engineering and Construction (Hyundai E&C) é um exemplo disto. Fundada em 1947, foi precursora do grande conglomerado sul-coreano de empresas que se consolidou nas décadas seguintes.

Com a visão de conectar pessoas, culturas e regiões através da construção civil, a Hyundai E&C é a maior empresa do segmento na Coréia do Sul, acumulando em 2013 a impressionante marca de 100 bilhões de dólares contratados fora daquele país, com obras inclusive na América do Sul (Venezuela, Colômbia, Uruguai e Chile). Alcançou em 2015 um lucro líquido de mais de 500 milhões de dólares, contra cerca de 300 milhões em 2013.

Com uma forte visão de liderança, a empresa tem investido no desenvolvimento de tecnologias com baixa pegada de carbono, no uso de energias renováveis e na gestão de recursos hídricos. Esta visão decorre de megatendências e de oportunidades mapeadas pela companhia, destacando-se:

Megatendências
• Aumento da população nas cidades e seu empobrecimento;
• Intensificação da escassez de água com prejuízo ao desenvolvimento e expansão de negócios;
• Mudanças bruscas na oferta e no preço de combustíveis e na política energética internacional;
• Intensificação da escassez de recursos naturais.

Oportunidades
• Idealização e oferta de infraestrutura urbana que privilegie conceitos de “smart cities and smart services” (gestão integrada de serviços públicos com apoio de tecnologia da informação com foco em eficiência e eficácia);
• Atuação nas áreas de tratamento da água e no desenvolvimento de tecnologias de reabilitação ambiental;
• Atuação na área de energias renováveis com tecnologias de alta eficiência e de baixa pegada de carbono;
• Desenvolvimento de tecnologias de reciclagem de materiais e desenvolvimento de materiais alternativos.

Competir com empresas orientadas pelo conceito da “Indústria da Construção” e que tem visões audaciosas sobre o futuro do segmento, exigirá novas competências e uma nova forma de atuação das empresas nacionais, com investimentos significativos em P&D (pesquisa e desenvolvimento tecnológico) e em gestão do conhecimento.

Sob esse enfoque, destaca-se que a Hyundai E&C possui um time com mais de 180 pessoas trabalhando exclusivamente na área de P&D, com um orçamento anual da ordem de 27 milhões de dólares e 90 patentes aplicadas em 2015.

Com o objetivo de se tornar líder mundial no segmento da construção, a empresa sul-coreana oferece soluções completas em todas as fases de um negócio: concepção, planejamento, construção, gestão e operação.

Interessante notar que além de se colocar como uma empresa de desenvolvimento imobiliário internacional, a Hyundai E&C ampliou seu escopo e também atua em áreas correlatas como a de Infraestrutura de Transportes e a de Gerenciamento de Facilidades (planejamento e operação de processos para que se consiga integrar de forma eficiente as edificações aos seus sistemas, equipamentos e serviços – Moacyr E. A. da Graça, 2012).

Além da construção de pontes, túneis e estradas, estações de dessalinização, estão entre os projetos com a participação da empresa para os próximos anos, a construção de uma instalação industrial de gás natural no Kuwait (Al-Zour LNG Import Terminal), orçada em quase US$ 3 bilhões e a construção do complexoGlobal Business Center (GBC) da Hyundai Motor Group em Seul. Num terreno de quase 80 mil m² com quase um milhão de metros quadrados de construção previstos, divididos em seis edificações, com uma de suas torres alcançando 105 andares, o GBC será erguido em 5 anos.

Ilustração do projeto Global Business Center (GBC) da Hyundai Motor Group em Seul com a participação da Hyundai E&C.

Ilustração de alguns outros projetos da Hyundai E&C e que indicam a elevada capacidade da empresa em concorrer em diferentes mercados com elevado grau de complexidade:

– Museu Nacional do Qatar: Obra com 135 mil m² formada por 316 grandes “discos” construídos em ângulos diferentes, teve as fases de construção e operação idealizadas e planejadas com utilização do BIM (Building Information Modeling).

– Jaber Causeway: Rodovia de 8 pistas com 36 km de extensão sobre uma baía do Kuwait. Combinando este trecho com o Doha Link, se forma a ponte mais extensa do mundo (48 km). Obra realizada em 5 anos consumindo por volta de 2,5 bilhões de dólares.

– Estação de pesquisa Jang Bogo (Antártida): A estação sul-coreana de pesquisa é composta por 24 edificações ocupando 4661 m² projetados com conceitos aerodinâmicos para fazer frente a ventos congelantes (-40°C) de até 65m/s (mais de 200km/h). Utiliza conceitos de geração de energia solar e por vento, além do reaproveitamento de calor do gerador como fonte de energia.

Desde 2006, a Hyundai E&C constituiu uma marca própria para atuação no segmento imobiliário: Hillstate. Com atuação dirigida ao segmento Premium, vem se notabilizando em projetos de grande porte e de maior valor agregado, como os ilustrados a seguir:

– Gimpo Gochon Hillstate: Empreendimento residencial na Coréia do Sul com 2605 apartamentos dispostos em 57 prédios com alturas que variam entre 10 e 15 pavimentos, mais dois subsolos.

Cerca de 40% da área destinada ao empreendimento foi utilizada pela empresa na construção de parques para a vizinhança. O complexo foi erguido em 31 meses a um custo de construção de cerca de 90 milhões dólares.

Ilustração de outros projetos que estão sendo comercializados no site da empresa:

Quando houver a retomada do crescimento do setor da construção civil brasileiro, e caso se confirme a tendência de aumento do custo de mão de obra, de forma similar ao que observamos até 2013, novos paradigmas guiarão a formação e a atuação dos profissionais de engenharia e arquitetura. Estarmos atentos e preparados para a industrialização em escala que se aproxima é uma tarefa que deveríamos iniciar o mais rápido possível.

Referências:
http://en.hdec.kr/
http://en.hdec.kr/EN/Sustainability/Global.aspx#.VwAVnpwrK1s
https://www.youtube.com/watch?v=Xxz33itieBs
http://www.hillstate.co.kr/

FONTE: http://blogs.pini.com.br/posts/tecnologia-sustentabilidade/a-globalizacao-na-industria-da-construcao-370111-1.aspx
DIVULGAÇÃO: ENGEFROM ENGENHARIA
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